Lá fora a cidade que se transformou num verdadeiro hit, descreve-nos um amanhecer na Cidade já velha de tudo, de espanto cansada de fumo e suor, no seu interior encontra-se a massa anónima de homens iguais, concentração, de homens sem rosto manifestação, de homens sem corpo revolução.

Perspectiva
Do Barreiro à Quinta Parte do Mundo

Na margem esquerda do Tejo existe uma vila fortemente industrializada onde predomina uma população operária habituada a múltiplos toques de sirenes e nuvens cinzentas artificiais, é o Barreiro, local de tradições de luta por melhores condições de vida. Pulsa matematicamente, por bielas e engrenagens. Ordena o gesto impessoal, repetido e preciso, impõe o estereótipo como única forma de sobrevivência. Os seus servidores habitam caixotes de cimento armado sonhando com varandas sobre florestas virgens.

.A carga emocional do binómio homem - máquina, a atmosfera asfixiante da cintura industrial e o desejo constante da libertação do espírito estão presentes nos seres humanos que não se deixam dominar pelo poder alienante da super tecnologia, entre os quais cinco jovens músicos que durante as poucas horas de libertação em que não trabalham ou estudam, se dedicam à criação de um pequeno (grande) universo que não esquece a realidade propondo alternativas. António M. Pinheiro da Silva, José Manuel Pereira Luis Miguel Luz, Vítor Real e Vítor Ferrão.

Ilustres desconhecidos com passados musicais ligados a conjuntos de baile, os cinco Perspectiva começam a dar nas vistas nos finais de 1976, altura em que já compõem musica própria. Um dia o grupo actuava em Viseu na primeira parte de um concerto em que a estrela era a Banda do Casaco, pela primeira vez a tocar ao vivo.

António Pinho e Nuno Rodrigues, a famosa dupla da Banda então trabalhadores da Imavox como produtores, gostaram dos Perspectiva e fizeram com que gravassem o primeiro Single, a que se seguiria outro e último.

"Lá fora a cidade" e "Os homens da minha terra" são os temas que compõem esse primeiro 45 rotações, editado na primavera de 1977, na mesma altura em que, pela primeira vez assisti a um espectáculo do grupo numa colectividade do Barreiro. Apesar das deficiências sonoras fiquei bastante bem impressionado com o trabalho dos cinco músicos em especial com o de Tó Pinheiro da Silva. Quanto ao single, tratava-se de uma pequena obra-prima do Rock de expressão Portuguesa.

"Lá fora a cidade" que se transformou num verdadeiro hit, descreve-nos um amanhecer na "Cidade já velha de tudo", "de espanto cansada" de "fumo e suor", no seu interior encontra-se a massa anónima "de homens iguais, concentração", "de homens sem rosto manifestação", "de homens sem corpo revolução". Do seu quarto, o seu "deserto feito de esperanças até á garganta", o dissidente observa a solidão e ali se "desvenda e "descobre". A música surge límpida e cristalina, em oposição à agressividade do exterior. Tó Pinheiro faz maravilhas com a guitarra e a flauta, as orquestrações são excelentes e a voz do Vítor Real é natural e desenvolta, de um timbre muito bonito. Lá fora a cidade é uma das mais belas composições de toda a história do nosso Rock.

Em "Os homens da minha terra" há uma nova descrição de um outro amanhecer. Desta vez o primeiro som é a sirene da fábrica, em contra ponto com a sonoridade lírica da flauta. Lá está o mesmo balanço, o pulsar de sangue nas veias, na "guerra do dia-a-dia guerra de imposta alegria de quem nunca tem razão". Desta vez a realidade é encarada sob o prisma da denúncia social: "Os homens da minha terra não têm medo da fome, como é que pode tê-lo quem à muito já não come Não têm medo da fome não têm medo da guerra porque há guerra em cada homem nos homens da minha terra".

Ao contrário do fizeram os MC5 na cidade industrial de Detroit, nos EUA, tocando hard-rock do mais pesado e agressivo, o Perspectiva retracta a realidade pela proposta de alternativas de que a sua musica e poemas são excelentes exemplos.

António A. Duarte - 1983

Fonte: 25 anos de rock 'n Portugal
  • Ilustres desconhecidos com passados musicais ligados a conjuntos de baile, os cinco Perspectiva começam a dar nas vistas nos finais de 1976, altura em que já compõem musica própria. Um dia o grupo actuava em Viseu na primeira parte de um concerto em que a estrela era a Banda do Casaco, pela primeira vez a tocar ao vivo.