A Verdade da Mentira blog

Fonte: um texto assinado por Carlos Bicas e uma foto de António Moreira tirada em Vila Nova de Cacela.

Um resumo biográfico da vida de Manuel Cabanas.

Uma vida inteira a lutar pelos mais desfavorecidos e pobres

São de Manuel Cabanas estas palavras, aos oitenta anos: «Estive sempre ao serviço da colectividade, nomeadamente a favor dos humilhados e ofendidos, dos mais humildes – em especial dos mais pobres – daqueles que mais eu via sofrer. Sabia apenas que tinha uma missão a cumprir junto do meu semelhante. Desde muito jovem que entendo que o homem moderno não pertence a si mesmo. Tem de se dar aos outros. Este dar significa ajudá-los, a contribuir para dias melhores, a partilhar um pouco a sua felicidade».

               
Ferroviário e sindicalista
Filho de modestos proprietários agrícolas, também naturais de V. N. de Cacela, Manuel Cabanas fez a instrução primária e dedicou-se aos trabalhos do campo como forma de ganhar o pão do dia-a-dia.
Em 1920 arranjou emprego como factor nos Caminhos de Ferro. Dois anos depois fixou residência no Barreiro, continuando ligando à CP. Aí desenvolveu cargos e funções no Sindicato dos Ferroviários do Sul e Sueste, uma das maiores forças sindicais e políticas do país, mobilizando a classe para a defesa dos seus direitos, nomeadamente, o que na altura era considerado um delito subversivo pelo fascismo, a inscrição das classes trabalhadoras nos cadernos eleitorais, a fim de cumprirem o direito cívico do voto.
Em 1927, por ocasião da Revolução de 7 Fevereiro, por fazer parte da Comissão Revolucionária local, é preso pela primeira vez.

Actividade social
Convivendo de perto com a penúria, o sofrimento e a repressão que assolou o país durante o regime fascista, Manuel Cabanas envolve-se na realização de obras inadiáveis de melhoramento social da classe dos trabalhadores.
A destacar:
De 1924 a 1930, Mestre Cabanas faz parte da direcção do Asilo D. Pedro V, no Barreiro, uma instituição muito pobre, onde consegue melhorias notáveis no equipamento e nos serviços.
Durante dezoito anos desenvolve grande actividade em prol da Comissão Nacional de Assistência aos Tuberculosos, que lhe valeu nova prisão.

Actividade cultural
Em 1941 faz parte de direcção do Clube 22 de Novembro do Barreiro, onde é desenvolvida intensa actividade cultural, a destacar: criação de um curso de desenho artístico para trabalhadores, com aulas nocturnas, donde saíram diversos artistas locais, e que acabou encerrado por ordem do Governo Civil de Setúbal. Criado um quinteto de música de câmara, com músicos todos barreirrenses, o qual dava mensalmente um concerto denominado “Tarde Cultural”, normalmente precedido de palestras por diversas individualidades conhecedoras de música e dos autores a serem interpretados.
Mestre Cabanas teve importante acção como dinamizador e interveniente em diversas tertúlias artísticas e intelectuais. Isto numa terra, Barreiro, fortemente vigiada e militarizada pelo regime, que impunha, a partir de certa hora da noite, uma espécie de recolher obrigatório, não permitindo ás pessoas quaisquer tipo de reuniões nem encontros onde trocassem ideias.
Ameaçado e perseguido, Manuel Cabanas teve cortado o seu direito à obtenção de passaporte para o estrangeiro.

Actividade política regional
Manuel Cabanas teve um papel preponderante na Oposição ao regime, no Barreiro. Por um lado, organizando e intervindo em diversas sessões públicas de esclarecimento, por outro, como testemunha de presos políticos, tendo ido muitas dezenas de vezes depor ao Tribunal.
As retaliações do poder político foram fortes sobre Manuel Cabanas. Perseguido, vítima de interrogatórios e investigações por parte da PIDE, preso por diversas vezes, essas retaliações acabaram, naturalmente, por se reflectir, de uma forma muito negativa, na sua vida privada.
Por um lado, no campo profissional, ao serviço da CP, foi coagido a manter-se vinte e três anos na mesma categoria profissional, quando, por norma, deveria ser promovido de quatro em quatro anos, e acabou vítima de reforma compulsiva, com um montante pecuniário muito inferior ao devido.
Por outro, a perseguição desencadeada pelo regime estendia-se ao seu próprio circulo de convívio. Saído de prolongados períodos de reclusão forçada, Manuel Cabanas, ao entrar, por exemplo, no café que habitualmente frequentava, muitas vezes sentiu o peso do silêncio e do temor que a sua presença despertava no ambiente. E, ao sentar-se à mesa, algumas vezes também viu homens cabisbaixos levantarem-se das suas cadeiras e saírem silenciosamente com receio das represálias da polícia política.

O docente
Em 1964, Manuel Cabanas é convidado pelo director da Escola Industrial e Comercial Alfredo Silva para docente daquela escola. Mas, em 1968, numa das últimas reuniões do Conselho de Ministros presidia por Salazar, é demitido das suas funções de docente, ao abrigo do decreto 25317, de 13 de Maio de 1935, como indesejável e “contrário aos altos interesses do Estado”.


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