MESTRE MANUEL CABANAS
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«Sou um homem do povo e com o povo me identifico».
Assim se definiu Mestre Cabanas.

Foi preso diversas vezes pelas repressivas forças policiais do regime salazarista. Foi perseguido, humilhado e injustiçado como cidadão e como trabalhador ferroviário. Mas nunca vergou nem desistiu de lutar pelas liberdades democráticas, pelos direitos cívicos e contra as injustiças que marginalizam os mais desfavorecidos da sociedade. Desenvolveu uma importante actividade como dinamizador cultural, em especial no Barreiro, onde viveu muitos anos. Foi também um artista, com uma notável e inovadora obra no campo do desenho e da gravura em madeira.
No final da vida, por escritura pública de doação, legou o seu património artístico à comunidade, criando o Museu Municipal de Vila Real de Stº António, que tem o seu nome.
Dele disse Raul Rego, caracterizando este homem «esgalgado, enxuto de carnes, passada larga, todo ele esqueleto e olhos», também fundador do PS:
«Onde estiver, o Manuel Cabanas fala, diz o que pensa, quem é e ao que aspira. Não há açaimo que o possa calar e rompe os ambientes mais densos. Como se força anímica tivesse de vir à superfície, exprimir-se, comunicar, aferir os seus sentimentos pelos dos outros, dar a sua solidariedade a quem dela precisa.»
“In A verdade da Mentira Blog”


Ele tinha acabado de subir a escada e dirigiu-se à nossa mesa, três estudantes de Liceu (Setúbal nesse tempo) e um deles interpela o Mestre: O mestre já reparou que tem a braguilha desabotoada? Reacção imediata: Se fosses sapateiro olhavas-me para os sapatos! Tinha ele pouco mais de 60 anos, saúde bastante e um humor brejeiro que não deixava ninguém sem resposta.
Manuel Cabanas, era conhecido e tratado por Mestre Cabanas. Nasceu a 11 de Fevereiro de 1902, em Vila Nova de Cacela, concelho de Vila Real de Stº António e faleceu a 25 de Maio de 1995. Foi amigo e companheiro do Pintor Américo Marinho que foi, segundo o próprio Manuel Cabanas, quem executou os primeiros desenhos no início da sua carreira de xilogravador. Com o passar do tempo, o próprio Cabanas passou a desenhar para posteriormente esculpir na madeira de Buxo.
O Homem que esculpia aquelas tábuas de Buxo passava grande parte do seu tempo de “reformado à força”, a trabalhar no Café rodeado de jovens ávidos de entender aquele personagem diferente, magro e bicudo, de fato cinza e gravata preta, de óculos na ponta da penca e cigarrito na boca, que permanentemente se entregava à peculiar actividade de talhar matrizes em madeira ao mesmo tempo que falava connosco como se fosse um de nós, explicando e praticando essa então perigosa coisa que era a Democracia, transmitindo a Liberdade que envolvia o seu discurso constantemente revoltado com a situação de opressão decorrente da governação fascista então reinante. Ali já tinha havido um 25 de Abril apesar da constante vigilância de alguns pides disfarçados de bem falantes bebedores de café. Onde eu estiver há democracia, ouvi eu várias vezes da boca do Mestre em pleno café.

Era então a década de 60, no tempo em que o “TICO -TICO” era a nossa casa. Ainda havia pouca televisão, ainda ninguem se tinha lembrado de embrulhar conversas para vender em massa, por isso só nos restava o convivio e troca espontânea de ideias frescas e ao vivo. O primeiro andar do estabelecimento era frequentado nas horas nobres por grande parte da “Inteligência Barreirense”. Oposição, rigorosamente vigiada, e defensores do regime eram permanentemente misturados com a restante fauna de estudantes, artistas e outros figurões. A cave era o sítio onde se via televisão. O piso térreo era mais dado a reformados, senhoras novas e outras nem por isso, homens de negócios e alguns dos mais castiços cromos que este Barreiro já teve. Tudo gente que preenche a minha memória, já que na altura fazia parte da atrás referida fauna estudantil.

Luís Ferreira da Luz /Novembro 2005

 

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