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Havia chegado o momento e Jorge Moniz sabia-o melhor do que ninguém. Depois de anos na sombra – a tocar como sideman, a desenvolver projectos pedagógicos, a burilar competências como instrumentista e compositor – o baterista barreirense decidiu, finalmente, que estava na altura de gravar este que é o seu disco de estreia como líder (diga-se, um dos poucos bateristas a fazê-lo, em Portugal).

Vencida a confessada acomodação, se assim o pensou, melhor o fez. Deitou mão às suas referências – do jazz à música tradicional portuguesa, passando pelo rock e pelas sonoridades mediterrânicas – e ergueu uma música que espelha não só os seus créditos enquanto baterista mas sobretudo enquanto criador de ideias claras, disposto a marcar lugar na cena nacional.

Para seus comparsas de jornada, Moniz escolheu três músicos, dos com que mais se identifica. O experiente e versátil guitarrista Mário Delgado, o mais interessante pianista de jazz surgido no nosso país nos últimos anos (Júlio Resende) e a certeza do contrabaixo que é João Custódio. Convidados especiais são dois: Carlos Barretto deixa a sua marca de experiência e bom gosto em três temas e o trompetista algarvio Hugo Alves – outros dos nomes fortes do jazz a Sul – surge em dois.

Escutado o disco, fica particularmente claro que, para Jorge Moniz, a música não tem fronteiras, sendo antes terreno fértil para cruzamento de linguagens e vivências. Motiva-o o impulso da descoberta e da mudança. Esquivando-se a catalogações, a sua música é elegante e límpida, mas nem por isso menos desafiante.

“Tralhoada” – que descobriu durante a pesquisa etnomusicológica que efectuou pelo Alentejo – surge de uma harmonização a partir de uma recolha de Michel Giacometti, e acaba por ser um tema novo, visto que no original não há qualquer música a não ser a voz dos trabalhadores rurais (já de si bastante musical, note-se). O resultado é uma peça tranquila, marcada pelo piano cristalino de Resende e pela guitarra de Delgado. “Arábico” traz-nos um intenso aroma a Médio Oriente. Alves move-se aqui como peixe na água. “Pacífico” é uma balada de contornos mais clássicos, onde Resende está ao seu melhor nível. Na mais frenética “Hora de Ponta” ecoa uma batida quase drum´n´bass, acolitada pela guitarra nervosa. A toada é dolente em “La Fuente Y La Campana”, do pianista e compositor catalão Federico Mompou, o único tema não original do disco, para o qual Moniz fez um magnífico arranjo. “Em Viagem” é introduzido pelo contrabaixo ganhado depois outra densidade. “Alburrica”, com o fliscorne elegante de Alves, é placidez feita música.

Jorge Moniz está umbilicalmente ligado ao Alentejo. Para além das raízes familiares na vila mineira de Aljustrel, deixou-se encantar pelas modas cantadas com orgulho pelas gentes transtaganas. Veio-me à memória uma delas, cantada pelo Grupo Coral “Os Ceifeiros de Cuba”, que assim reza: “Pelo toque da viola/já sei as horas que são/Ainda não é meia-noite/Já passei um bom serão”.

António Branco
Beja. Outubro 2009

         
 
     
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