No início do século passado, o Barreiro era ainda uma pacata vila de pescadores. Apesar da linha do caminho-de-ferro e das indústrias corticeiras que se tinham instalado nesta margem sul do Tejo. Daqui, conseguia-se avistar Lisboa – lá longe, do outro lado do grande rio. A CUF, que laborava em Alcântara, queria crescer. Já não lhe bastavam os sabões, as velas e os óleos produzidos na Fábrica Sol ou os adubos e produtos químicos confinados à área da Fábrica União. Alfredo da Silva, o visionário capitão da indústria portuguesa, acreditou que o Barreiro podia ser a chave para a expansão e a ambição da CUF. Comprou terrenos na frente de rio e iniciou a construção daquele que viria a ser um dos maiores pólos industriais da Europa. Em 1909, no dia 19 de Setembro, a primeira fábrica entrava em produção.

 
 

«Num cenário de escombros, onde hoje reinam o silêncio e a desolação, houve um dia uma cidade fervilhante povoada por 10 mil operários: dezenas de fábricas, bairros de habitação, refeitórios, laboratórios, estaleiros, escolas. O maior complexo socioindustrial português do século xx.»

É esta cidade fervilhante e os seus 10 mil operários (quem eram, como viviam, em que condições trabalhavam, o que os distinguia de outros proletários da época) que Jorge Morais nos traz de volta com um relato claro e afectuoso. Uma revisitação do que foi o Barreiro, um retrato nítido de quem criou a CUF e de como a sonhou grandiosa e eficiente, usando a cada passo as mais avançadas tecnologias e distinguindo os seus colaboradores, do topo à base, com cuidados e regalias sociais de vanguarda. Passados os anos tumultuosos, era urgente uma obra como esta, que fizesse renascer o Barreiro fabril do silêncio em que mergulhou. Cuidadosamente investigada, saborosamente redigida, esta Rua do Ácido Sulfúrico é um contributo imprescindível para a história social e económica do século xx português.

 

Foi no Barreiro que se fez a revolução industrial portuguesa.
Ali concretizou-se o sonho de Alfredo da Silva, o grande empresário português da primeira metade do século XX.
A CUF criou um novo conceito de família. À volta das fábricas criou-se uma cidade industrial.
Inovadora, para a sua época, a CUF trouxe para Portugal uma nova forma de se encarar a actividade empresarial. Substituiu-se aos deveres sociais do Estado: criou a sua própria segurança social, hospitais e escolas. Foi um país dentro de um país.
Terminal dos caminhos-de-ferro para o sul, perto de Lisboa, o Barreiro era o local ideal para o desenvolvimento das principais actividades da CUF. Quanto mais estas se expandiram, mais o Barreiro cresceu.
Vila operária para uns, cidade do trabalho para outros, o Barreiro fez-se de sonhos e conflitos.
As suas altas chaminés assistiram a greves, inovação, repressão e segurança.
O Barreiro foi, através da CUF, a ponte entre duas margens de Portugal: a rural e a industrial.
Por isso, nas palavras de Fernando Pessoa, Alfredo da Silva foi uma “Avis rara” em Portugal. Quando o seu caminho se cruzou com o do Barreiro, Portugal mudou.