Bruno Contreiras Mateus / Correio da Manhã

 
Companhia União Fabril - CUF
A fábrica de tudo e de todos
 

No Barreiro há sempre quem tenha algo para contar sobre a Companhia União Fabril. Porque lá trabalhou, ou porque lá estudou ou viveu. Motor de uma região, a CUF faz 100 anos

Sou o que Alfredo da Silva queria que eu tivesse sido', afirma orgulhoso Manuel Gomes Cerqueira, de 58 anos. 'Eu não nasci num quintal. Nasci no posto médico da CUF. Fui para o infantário da CUF, à escola da CUF, para a colónia de férias da CUF, para o centro educativo da CUF, para a Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva [inaugurada em 1947] onde tirei o curso industrial' – enfatiza. 'Andei descalço até aos 14 anos. Os meus primeiros sapatos deu-me a CUF quando fui para a colónia de férias.' Esta era a política paternalista que o 'patrão' das indústrias no Barreiro oferecia aos trabalhadores e à família destes. Por um lado tornava-os mais dependentes do trabalho; por outro, foi o precursor das políticas sociais no País.

O pai de Manuel Cerqueira começou por ser estivador. Como muitos, 'foi no balão' [despedido] três vezes. Regressava a casa, em Arcos de Valdevez, no Minho. Quando conseguiu fixar-se na CUF, passou a operário têxtil. A mãe começou por coser sacos de adubo, depois passou para as limpezas.

Naquela época, era no bairro das Palmeiras, contíguo às fábricas, que vivam em ilhas a maioria dos operários sem especialização alguma. Viviam em barracas, tal como a da família Cerqueira. 'Morávamos numa barraca de madeira em duas assoalhadas. Os meus pais e seis filhos. Parece que estou a olhar para ali' – diz, enquanto aponta para o canto do seu antigo pátio – 'e estou a ver tudo inundado pelas cheias, eu bebezinho com papeira, deitado na minha cama.' Manuel não se contém com as recordações e as lágrimas correm-lhe. 'Reviver estas histórias é muito complicado', justifica. 'Depois a barraca passou a ser capoeira e mudámos para uma casa de tijolo, ao lado'.

Naquele quintal apertado não há hoje barracas. Mas o bairro está tão degradado que a condição daquelas pessoas parece não ter melhorado nos 58 anos de vida de Manuel Cerqueira. 'Sentava-me em cima do muro e assistia aos bailaricos, no Grupo Desportivo Operário' – colectividade fundada em 1934 no bairro operário (a menos de um quilómetro dali) e que, dois anos depois, os operários conseguiram deslocar para o bairro das Palmeiras. Manuel seguiu o destino da família e empregou-se também na CUF. Mais tarde foi para a Renault.

Alfredo da Silva procurava justamente criar, formar e empregar este tipo de trabalhadores. E Manuel Gomes Cerqueira foi mais longe ainda do que teria 'sonhado' o 'patrão': enquanto jogador de basquetebol do GD CUF (ver texto ao lado) foi, em 1978, capitão da Selecção Nacional.

Os primeiros operários do Barreiro, em meados do séc. XIX, eram corticeiros, ferroviários, moageiros e pescadores. Em 1864 residiam no concelho 4543 pessoas e já em 1911 – três anos após a fundação da CUF – subiu para 12 203. As oficinas dos Caminhos de Ferro Sul e Sueste – com ligação às planícies alentejanas – e a proximidade com o rio Tejo, defronte para Lisboa, foram determinantes para Alfredo da Silva erguer ali as fábricas. Nos anos 40, o 'grande formigueiro' de operários era parte de uma população local de 26 104 habitantes, que muito cresceu à custa de migrantes do Alentejo e Algarve, principalmente, mas também das Beiras e dos 'ratinhos', do Norte. 'O Barreiro é atípico no contexto português. A indústria implanta-se destruindo a terra de cultivo' – refere Ana Nunes de Almeida, investigadora principal do Instituto de Ciências Sociais. 'Passa a uma grande concentração urbana de operários que viviam a tempo inteiro para a fábrica. O que torna a relação com a CUF muito mais tensa.'

 

António Patacas, 86 anos, começou a trabalhar aos 11 (em 1932). Ajudava as mulheres a coser sacas para adubos. Claro, uma criança cosia duas ou três por dia; as operárias, mais de cem. 'Eu ia descalço, com uma camisa e calças. Não tinha cuecas. Não sabia ler nem escrever.' Era o retrato da maioria das famílias do Barreiro. 'Na minha casa não havia refeições. Éramos 21 irmãos – mas só me lembro de 12.'

Evita falar de política e é preciso insistência para que António desenrole este novelo. Depois mostra um jornal ‘Avante!’ de 15 de Fevereiro de 1931. Aos dez anos já o distribuía clandestinamente. O papel do original era uma 'seda' tão fina que, depois de amachucado, 'comia-se' se a PIDE perseguisse o leitor. 'Aos 15 anos eu já dava um tostão ou cinco – o que podia – a quem angariava dinheiro. Era preciso muito dinheiro para aguentar um partido assim. Chamavam à esta terra o Barreiro-Moscovo. E era onde a PIDE tinha também mais informadores. Calculava--se que em cada quatro pessoas um seria informador. Era uma desconfiança.'

No final da década de 40, os dez mil trabalhadores da CUF agrupavam-se em seis sectores: 300 nos Ácidos; 200 nos Adubos; 300 no Cobre; 300 na Química Orgânica; mil na Metalomecânica, incluindo a fundição do ferro e do aço, as oficinas de construções mecânicas e as oficinas de construções metálicas e navais; e cerca de três mil no Têxtil, incluindo a fiação e tecelagem da juta, a fiação da lã, a tinturaria, a confecção de tapetes, lonas precintas e mangueiras, o fabrico de fios e cordas, velas e encerados.

Já como servente de pedreiro – depois dos 15 anos –, Patacas conhecia bem os cantos destes 790 mil metros quadrados. 'Era uma escravidão. Se visse hoje como se trabalhava nos adubos jogava as mãos à cabeça. Era uma loucura de manhã à noite, saíamos de lá loucos só com o trabalhar da máquina. A metalurgia do cobre era um inferno de calor. Morria muita gente.'

E foi um acidente de trabalho que mudou a vida de Patacas. Caiu do alto de um andaime com três colegas em cima. Depois, o trabalho continuou mas nos escritórios de um armazém de ácidos. Patacas, que tinha aprendido as letras como autodidacta, aprendeu a ser escriturário, 'não por mérito, mas pelo acidente'. Até há pouco tempo, Patacas, que se fez a si próprio na adversidade, foi artesão, pintor e fotógrafo.