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Texto da autoria e da responsabilidade de Carlos A. Silva Pais, barreirense, 2007/08
Cândido Lopes - Pintor Barreirense Cândido Lopes, desenhador, pintor naturalista barreirense
         
    A “revolução na madeira”    
A Holanda        
         
Cândido Lopes
 
Cândido emigrou para a Holanda em 1965, onde exerceu profissões pouco qualificadas. Quem aqui escreve visitou-o lá por duas vezes. Residia com a esposa Palmira, a filha Candinha e sua descendência, num belo apartamento, em Zaandam, perto de Amesterdão, na tão encantadora região imortalizada na nossa literatura por Ramalho Ortigão.   
Quando da nossa segunda visita à família Lopes, em 1976, já o artista deixara praticamente de manusear os pincéis. Nem aqueles polders extasiantes, nem os belos moínhos típicos, tão perto de casa, o entusiasmavam. Para desenhar, pintar a óleo, sentia a falta dos aspectos da terra natal, os seus moínhos, as cercanias da Mercantil, com as fragatas, aqueles lugares da vila ribeirinha que ele, amiúde, calcorreava sozinho.
Todos os anos deslocava-se o Cândido de férias da Holanda ao Barreiro, ao volante do seu valente “espada” azul, que a alguns causava certa inveja. Após vinte e um anos no país das tulipas, regressou ele ao Barreiro, para sempre. Amigos apreciadores da sua arte pictórica ainda organizaram em 1985 uma bela exposição de obras suas na Escola Secundária da Baixa da Banheira.
O pecúlio obtido na Holanda muito ajudou o Cândido a adquirir um apartamento na vila-berço. Frequentava muito o Café Tico-Tico, E, como sempre, enquanto tomava a sua bica, não deixava de sorver dois, por vezes três bagaços, ou bebidas sucedâneas. Um hábito que se reverteria fatal. Era assim, bem acalorado, que ele melhor conversava, discutia a sua bonita arte da pintura, e as artes dos outros, e também punha à prova a sua prodigiosa imaginação ou fantasia. Piorou da doença. Faleceu no hospital do Barreiro em 10 de Novembro de 1987, portanto com apenas 62 anos. 
E quando a consagração?    

As obras de Cândido Lopes não poderão cair no esquecimento. Também nesta vertente há que elogiar o Artbarreiro. Porém, num museu da cidade do Barreiro deveria existir, um dia, uma “Sala Cândido Lopes”. Seria a consagração do grande artista. Muitas das suas obras encontram-se espalhadas por esses lares.
Telas deste artista deverão ser expostas em espaço público permanente, até porque ele também pintou tantas vistas locais que deixaram de existir, que hoje não são mais que saudade. Não poderiam faltar quadros mostrando Alburrica, o lago dos cisnes no parque, ou  o “Largo da Srª. do Rosário”, ou a antiga “Vila Bravo“, vulgo “Prédio do Galo“, em cujo torreão Américo Marinho possuia o seu atelier. Ou as “Salinas do Lavradio”, ou uma cena da Verderena. E que não fique esquecido um original da ozalide do Painel de Álvaro Velho, que a família deste escrevinhador com o maior prazer também legaria.
Deixamos evocado o irreverente homem do desenho e da pintura, também óptimo retratista a óleo, que era possuído de acrisolado amor ao seu torrão natal. Alguém que conheceu bem o Cândido, definiu-o, para nós, de modo sucinto e justo: “Ele era muito controverso, mas bom moço, bom artista…”.

Agora outra citação extraída de um texto do Mestre Manuel Cabanas: “Desculpem-me a franqueza. O Barreiro não foi justo para com o artista Cândido Lopes, menosprezando os seus devaneios de artista resultante da sua fina e inegável sensibilidade… Quer se queira, quer não, o Cândido … é nas artes plásticas um marco de uma época muito difícil que tem repercussões no quotidiano barreirense“. Por fim, opina quem aqui escreve… Como nos podemos congratular por termos tido um conterrâneo pintor naturalista, de bom gabarito e estilo próprio, que nos deixou tal conjunto de telas a óleo de vistas antigas barreirenses, que nos enternece, a nós e a certamente muitos outros…
Texto da autoria e da responsabilidade de Carlos A. Silva Pais, barreirense, 2007/08