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Texto da autoria e da responsabilidade de Carlos A. Silva Pais, barreirense, 2007/08
  Cândido Lopes - Pintor Barreirense Cândido Lopes, desenhador, pintor naturalista barreirense
             
      A Holanda    
             
      E quando a consagração?    
             
       
A “revolução na madeira”
Cândido Lopes
   
 
Nascera acentuada amizade entre o pintor e o mestre xilógrafo Manuel Cabanas. Porém, um dia as suas relações ficaram bastante abaladas. O desentendimento durou bons meses. Tratou-se da famosa e inflamada contenda que alguém espirituoso baptizou de “revolução na madeira”. Nela, o ferroviário jornalista Joaquim António Oliveira da Silva patenteou-se como o maior “antagonista” de Cabanas. Mas Cândido Lopes também se sentia mais que aborrecido, porque muitos dos desenhos que ele proporcionava a Cabanas, quando xilogravados, não apresentavam as iniciais do desenhador, as “CL”.  
As facetas da intensa polémica cultural muito fizeram sorrir, rir, ou mesmo gargalhar o Barreiro. “Artista ou artesão?” era a questão crucial...  O apreciado xilógrafo Cabanas seria um artista, ou simplesmente um bom artesão da madeira gravada? Quem ganhou com a disputa foi o “Jornal do Barreiro”. Estampando os conteúdos das cartas dos contendores, que deitavam muitas achas na fogueira, o semanário - viu aumentar as suas vendas...
Uma vez, a Câmara do Barreiro encomendou ao Cândido - contra razoável maquia - uma tela com Oliveira Salazar, que o artista executou o melhor que pôde. (O quadro estampando o então Presidente do Conselho chegou a estar exposto durante dias em montra de conhecido estúdio fotográfico). Aquela pintura passou a ocupar lugar de honra na Câmara. Foi deposta quando Marcelo Caetano subiu ao cargo antes desempenhado por Salazar. Esteve uns tempos arrecadada, passou para a Biblioteca Municipal, onde ficou em exibição na cave-arquivo. Houve o cuidado de pô-la a devido recato em período bastante alvoroçado, senão seria o adeus àquela obra de arte.
Agora, por favor, que ninguém, apressadamente, deite achas na fogueira, e faça enfileirar também Cândido Lopes em irrevogável “lista negra”, o que entre nós - diga-se de passagem - não seria coisa do outro mundo. Acentue-se que o nosso evocado era totalmente apolítico...  
Neste contexto, é necessário recordar que Manuel Cabanas levou o Cândido a participar numa campanha oposicionista. Citamos o que o Mestre Cabanas deixou bem escrito: “Em 1949, por meu intermédio, (Cândido Lopes) foi encarregado de fazer um cartaz que figurou em mais do que uma sessão da Campanha para a Presidência da República do General Norton de Matos. A partir desse desenho eu extraí uma gravura em madeira do general que seria publicada pelo jornal “República“.
Realmente, o Cândido era indiferente à política. (E também se satisfazia - isto no Barreiro, imagine-se! - em não ligar “pevide” ao futebol). Demonstrou ser, isso sim, um “francesão” do coração. Na sua S.D.U.B., “Os Franceses“, até nos legou os belos frescos alegóricos do proscénio, que ainda lá podem ser admirados, incluindo a instrumentista, que - segundo sempre constou - apresenta grandes parecenças com sua esposa. Pintou também cenários para festas de colectividades locais.
Após o falecimento do Padre Abílio Mendes, foi solicitado ao Cândido que tomasse a seu cargo a feitura dum quadro com o querido prior da terra, tarefa que ele executou com brilho. E o óleo afigurando o Padre Abílio passou a ser admirado na sacristia da Igreja de Santa Cruz. Também é da autoria do Cândido uma linda tela do eminente poeta algarvio Cândido Guerreiro, que - a pedido de Cabanas - posou vários dias, em Faro, para o  Cândido do Barreiro. Tal quadro encontrava-se exposto no desaparecido museu primitivo de Cabanas em Vila Real de Santo António, tal como a imagem da casa natal do xilógrafo em Cacela, do mesmo pintor. Concebeu outros retratos, como o do próprio Cabanas.  
Agora algo que não pode ficar esquecido. Também foi o Cândido – poucos o sabem – quem “deu um rosto“ a Álvaro Velho, a figura histórica barreirense que redigiu o “Roteiro” da epopeica primeira viagem de Vasco da Gama à India. Já em  pleno período de emigração na Holanda, o artista produziu em 1969 uma obra-prima: a ozalide ”Painel a Álvaro Velho”. Desenhos encantadores... A figura que ele idealizou do cronista Álvaro Velho encontra-se flanqueada por uma cena do Barreiro piscatório do sec. XV, estando representadas, no lado oposto, as naus do Gama ao largo de Calecute. (Este painel foi transposto para azulejos por uma professora algarvia, talvez não de modo ideal, numa parede exterior da escola do mesmo nome no Lavradio).
 
                 
Texto da autoria e da responsabilidade de Carlos A. Silva Pais, barreirense, 2007/08
 
                 
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