Belmiro Ferreira
 
           
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Belmiro Ferreira, Pintor Barreirense nasceu em 1912 e teve como a maior parte de nós a vida marcada pelo ritmo dos cascos dos cavalos da GNR que nos vigiava e pelo silvo das sirenes das fábricas. Quando nasceu, estava a CUF a instalar-se no Barreiro e a dar também os primeiros passos naquilo que havia de ser a transformação do Barreiro num dos maiores centros industriais do país com todas as implicações positivas e negativas que daí resultaram. Belmiro teve uma vida como tantas outras de ganga azul vestido nesta “Terra Camarra” até que, por alturas de 1970, com 60 anos de idade entendeu que queria pintar. Estive com ele, sentado num banco de jardim, conversando, sem apressar o homem que hoje já não tem a memória tão límpida e clarividente como antes mas que ainda é uma pessoa com quem muito podemos aprender. Foi um operário da CUF, trabalhou nos “tecidos” até que o seu amigo Herculano Marinho o puxou para um serviço melhor, o escritório. O Belmiro é que passado pouco tempo pediu para voltar para os tecidos, diz ele que no escritório via certas “extravagâncias” com as quais não podia conviver. Falámos da companheira entretanto falecida e do desinteresse que por esse motivo nele se instalou, falámos do progresso e das coisas que já não compreende e principalmente abordámos pormenores dos seus quadros no sentido de melhor entender o processo de desenvolvimento e as sucessivas transformações da nossa terra. Naquele quadro do Belmiro onde claramente se identifica o Palácio do Coimbra, o edifício está rodeado de vegetação de onde sobressai uma grande chaminé de tijolo à direita, nessa chaminé que hoje não existe e que ficava situada no local agora ocupado pelo bairro social da CP, eram içadas bandeiras vermelhas dando origem a repressão da policia politica. Noutro quadro documenta-se a barreira de argila que segundo alguns deu origem ao nome de Barreiro e que determinou a morfologia hoje existente e sobre a qual se podem identificar fábricas de cortiça que naquela época abundavam no Barreiro As cores de Belmiro têm a pureza e a claridade de um azulejo árabe, a minúcia e o respeitoso pormenor revelam a enorme alma do homem por trás da obra. Os imaginativos enquadramentos e as perspectivas só possíveis na sua imaginação porque são vistas aéreas, foram já anteriormente comentadas entre Belmiro e o grande fotógrafo Barreirense Augusto Cabrita que foi um dos maiores apoiantes, admiradores e impulsionadores da obra de Belmiro. Com uma rara noção das dimensões e da sua relação, numa simbiose de arte, memória e imaginação, produziu uma obra única e preciosa, sobretudo valiosa pelo seu conjunto como manifestação artística e pela informação rara nela contida sobre o Barreiro da primeira metade do século XX, ficámos a conhecer mais um Barreirense imortal

Luís Ferreira da Luz

Agosto 2003